sexta-feira, maio 30, 2014

Futebol

Torcidas Organizadas: o outro lado

Com fama de maus, torcedores das organizadas mostram que também amam, e com carinho!



O crescente número de casos de brigas e mortes motivadas pelo futebol, em sua maioria envolvendo integrantes de torcidas organizadas, tem feito boa parcela dos torcedores comuns encararem estes grupos como algo negativo para o esporte e para a sociedade em geral. Ao menos é o que aponta uma pesquisa respondida por 136 internautas torcedores. O resultado mostra que para 62% dos entrevistados as uniformizadas são negativas, 21% se dizem neutros a esse respeito e apenas 17% as consideram positivas. Mas será que todo membro de uma torcida organizada se enquadra nesses moldes?



O sociólogo Mauricio Murad, ex-coordenador do núcleo de Estudos de Sociologia do Futebol, da UERJ, e autor de Para Entender a Violência no Futebol, afirma em seu livro que “as frequentes cenas de violência e vandalismo no futebol brasileiro são causadas por 5% dos torcedores organizados”. Murad ainda faz questão de ressaltar que estes “são grupos preocupantes, armados, sem limites e que devem ser contidos, sim. Mas não devemos esquecer que são minoria. Não se diz isso para minimizar o problema, mas para situá-lo em seu devido lugar e ver quem é quem nessa história da violência no futebol”.
O estudioso aponta que, além de primarem por atitudes e comportamentos pacíficos, a maior parcela das torcidas procura agir no sentido de neutralizar os vândalos, chegando até mesmo a fazer parcerias com forças de segurança. “É importante saber que no Brasil há movimentos de denúncia, combate e pacificação dentro das torcidas organizadas contra os grupos de torcedores violentos”, afirma.
O depoimento é reforçado pelo jornalista Vitor Birner, ex-integrante de torcidas organizadas do São Paulo. “Eu conheço um pessoal que a gente chama de Velha Guarda e esse pessoal não gosta de briga, nenhum gosta. Então, eles não concordam com algumas coisas que acontecem nas torcidas”, conta ele.
Mariana Oliveira, que faz parte da Camisa 12, do Corinthians, também afirma que esse tipo de comportamento vai contra os ideais da torcida e lembra que a questão da violência não é algo que pertence exclusivamente ao universo do futebol: “O problema da violência nas torcidas organizadas é um reflexo da nossa sociedade, mas, por parte da torcida, a gente não incentiva isso e existe um controle. Se algum membro adotar uma postura violenta, a diretoria vai procurar tomar medidas para inibir esse tipo de conduta”.
A torcedora também aponta a mídia como uma das responsáveis por criar uma visão generalizada das torcidas organizadas: “O que acontece na mídia muitas vezes é que eles não ouvem o nosso lado. Então, acaba generalizando sem consultar a gente. É injusto”. O sociólogo Mauricio Murad reforça a distorção cometida por parte da imprensa em alguns casos: “Diferentemente do que é divulgado nos meios de comunicação, e que já está incorporado no inconsciente coletivo, a imensa maioria das torcidas é constituída por um público pacífico, embora vibrante, apaixonado”.
Quem faz críticas semelhantes à de Mariana é Acyr Moraes, membro da Gaviões da Fiel há dez anos. “Cresci nas arquibancadas, via e participava das festas. Chegava em casa em êxtase para ver o espetáculo na TV, mas só mostravam brigas isoladas. Desde pequeno percebi o poder da mídia, de manipular informações, porque evidenciavam aquele acontecimento que muitas vezes os torcedores que estavam presentes nem sabiam que tinha ocorrido”, diz ele.

A FESTA
Torcida Independente pinta o Morumbi com as cores do São Paulo.
“A torcida é a alma do time”, afirma Vitor Birner. É o que também pensa Fabiano Haddad, 41, torcedor do Corinthians, que acredita que a torcida é a responsável por trazer a empolgação para o jogo. “A gente vem aqui para ver eles também, não só o time, mas eles, a festa”, conta ele, que levava a família ao seu primeiro encontro com um clássico entre Corinthians e São Paulo no Pacaembu. O relato carrega o peso que uma organizada tem durante o jogo. É ela a responsável por entoar os cânticos e levar faixas, bandeiras e bexigas, para que durante todo o tempo de jogo, os jogadores sintam o pulsar da bateria batendo no peito, transformando a partida em um espetáculo capaz de deixar arrepiado quem se deixa tocar por ele. Acyr Moraes, da Gaviões da Fiel, resume a relevância da torcida em uma única frase: “estádio sem torcida organizada perde a vida, fica morto”.

OS DONOS DA CAMISA 12
Torcedores do Palmeiras homenageiam o goleiro Marcos,
um dos maiores ídolos do clube, com mosaico.
Se para quem assiste a uma partida, sentir o apoio da torcida é algo emocionante, o que diz quem está dentro de campo? “É difícil (explicar). É bonito. É muito legal, muito gratificante. Eu tive uma experiência nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, contra o Paraguai, em uma partida que decidiria a classificação. E foi um dos melhores públicos do país no Maracanã. Como eu tinha ido muito bem no último jogo, passados 25, 30 minutos do segundo tempo, estava 0 a 0, e de repente a torcida começou “Rivellino”. Aquele Maracanã, você não sabe a emoção que é. Eu era moleque e aquilo foi um negócio que mexeu muito comigo”, narra Roberto Rivellino, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial e ídolo do Corinthians, Fluminense e da Seleção Brasileira.

PROJETOS SOCIAIS
Em sua maioria, as torcidas organizadas tem o hábito de promoverem ações sociais em comunidades carentes e com moradores de rua. É o caso, por exemplo, da Camisa 12, uniformizada do Corinthians com sede do bairro do Pari, em São Paulo. A organização promove trabalhos voluntários em várias épocas do ano, como a campanha do agasalho, que está acontecendo atualmente.
Entre as ações estão campanhas de doação de sangue, que ocorrem tanto em parceria com o Corinthians quanto de forma independente do clube, na sede da torcida, distribuição de brinquedos para crianças carentes no dia das crianças, assim como de ovos de chocolate, na Páscoa. Mariana Oliveira conta que o dinheiro utilizado nas campanhas é proveniente da própria verba da torcida ou de ofícios em parceria com fábricas da região.
Em jogo contra o São Paulo, no estádio do Pacaembu, a Gaviões da Fiel
estende bandeirão contra o racismo e a exclusão social.
Outra torcida que promove ações do gênero é a TUP, Torcida Uniformizada do Palmeiras, que, além de prestar serviços para a comunidade, através de campanhas de agasalho, por exemplo, também mantém convênios com forças sindicais para disponibilizar cursos profissionalizantes para os associados e suas famílias.
Já a Gaviões da Fiel organiza campeonatos de futsal para moradores de seus arredores e oferece aulas de informática e escolinha de bateria, onde ensinam os alunos a tocar algum instrumento. Para seus membros, a organizada também oferece palestras periódicas, onde são transmitidos os valores e a história da torcida.

GLÓRIAS DO PASSADO
Poucos sabem, mas muitas das principais torcidas organizadas de São Paulo foram criadas durante a ditadura militar e serviram como forma de resistência ao governo em vigência. Em seu livro Torcidas Organizadas de Futebol, Luiz Henrique de Toledo afirma que “juntamente com outras formas de organização e associação, a torcidas formaram canais de participação populares diante da ausência de partidos e representações legais”.
Anos antes da Democracia Corintiana, a Gaviões da Fiel reivindicava abertura política para o país durante a ditadura militar. Veio da torcida a primeira faixa pela anistia, aberta para cem mil pessoas. O fato ocorreu em um jogo contra o Santos, em 1979, no estádio do Morumbi. Durante a entrada das equipes, lia-se nas arquibancadas os dizeres “Anistia ampla, geral e irrestrita”, a primeira manifestação pública a favor da ação.
Em depoimento à Fundação Perseu Abramo, o jornalista Antonio Carlos Fon relata o episódio. “Um dia eu estava conversando com o Chico Malfitani, que trabalhava comigo na Veja, e disse a ele: ‘O que precisamos mesmo é levar a palavra de anistia para a torcida do Corinthians, para o povo’. O Chico era um dos pioneiros da Gaviões e disse: ‘Vamos fazer’. Quase todo mundo fotografou e isso foi parar no Brasil inteiro”.  O ato, no entanto, fez com que integrantes da organizada fossem intimados a comparecer ao Doi-Codi.

Gaviões da Fiel abre faixa a favor da anistia em jogo contra o Santos, em 1979, no Morumbi.


VOCÊ SABIA?
Charanga do Flamengo, em 1942.
Historicamente, a organização dos torcedores brasileiros de futebol começou com a fundação da Torcida Uniformizada do São Paulo, por Laudo Natel e Manoel Porfírio da Paz, em 1940. Dois anos depois, surgia a Charanga Rubro-Negra, do Flamengo, criada por Jaime Rodrigues de Carvalho.




FIQUE POR DENTRO!
A união entre futebol e carnaval vem de longe. Charanga é como se chamam as bandinhas de animação do interior do Brasil que levavam música, principalmente marchinhas, para dentro dos estádios nas primeiras décadas do século XX.

UM POUCO DA HISTÓRIA DAS MAIORES TORCIDAS DE SÃO PAULO





CONFIRA:

Áudio: Ping-pong com Roberto Rivellino



Vídeo: entrevista com Marina Oliveira Ramos - integrante da torcida organizada Camisa 12




domingo, junho 09, 2013

São Paulo ainda pulsa


Será que a metrópole paulistana, a cidade que nunca dorme, realmente virou um mar de concreto, ou é você que não consegue ver mais além?
 
As chuvas de verão viraram pesadelo para o morador de São Paulo, isso porque a cidade não foi estruturada para suportá-las. Os rios estão poluídos e têm um mau cheiro tão forte que chega a ser tóxico quando inalado. Os moradores não aguentam mais os famosos problemas da cidade grande, levando uma vida estressante e sem qualidade.

Você sabia que existem mais de 300 rios embaixo do cimento pavimentado que percorremos todos os dias para ir e voltar do trabalho? Pois é, os rios não se restringem a apenas aqueles trechos sujos que ficam expostos nas marginais. A água que brota na calçada em frente à sua casa e que corre pelos cantos das calçadas sem que haja chuva, pode ser de um rio.      

Gente que faz acontecer
Será que, realmente, não existe um lugar perto de você que possibilite o contato com a natureza, dando aquela sensação que te desliga da rotina alucinante? A maioria dos paulistanos não sabe, mas São Paulo esconde um verdadeiro universo aquático por baixo de suas avenidas sem fim. Quem conta um pouco mais sobre esta história é José Bueno e Luís Campos Jr, fundadores do projeto Rios e Ruas. “Isso aqui não se trata de urbanismo ou arquitetura, e sim de pessoas”. Preocupados com a qualidade de vida do cidadão, os urbanistas se propuseram a dedicar parte de seu tempo para conscientizar o paulistano sobre a relação estabelecida com o meio.

Realizando encontros esporádicos, José e Luís formam grupos para conhecer os rios da cidade. “Aqui, embaixo da ponte do Sumaré, correm dois rios: córrego da água preta e córrego da água branca. Tá vendo aquela água ali na calçada? – apontando para o local – aquela água é rio”, diz Luís, em expedição realizada para conhecer trechos do córrego da água preta.

Além de identificar pedacinhos dos rios e proporcionar este contato inusitado entre a água e o paulistano, José e Luís falam sobre o uso do espaço público. “Nós somos a coisa estranha nessa paisagem”, diz Bueno, ao perceber o incomodo dos motoristas com os pedestres. Os homens da natureza apresentam um novo viés da cidade para quem os acompanha nas caminhadas. Através de variação climática e exuberância de algumas plantas e árvores, aprende-se a identificar a presença de nascentes dos rios sob o asfalto. Eles estão sim aprisionados, mas deixam marcas indeléveis de sua presença.

Para conseguir identificar a nascente torna-se necessário atiçar outros órgãos do sentido: ouvir o rio sob as galerias, perceber a variação climática do local através da sensação tátil e olfativa, praticar um olhar diferente para perceber as árvores que nunca são percebidas. “Na expedição, fiz o esforço de resgatar os recursos humanos que estavam adormecidos em mim. Foi como um despertar de minha natureza que, na verdade, está sempre presente apesar dos constantes esforços externos emprenhados em destruí-lo”, diz Elaine L. Machado, participante de uma das expedições propostas pelo Rios e Ruas.

Um pic-nic encerra o evento, com a proposta de que novos olhares e experiências sejam compartilhados. A palavra “magia” se fez presente na fala de grande parte dos presentes, demonstrando a descoberta de uma nova relação com a cidade, até então desconhecida.

O projeto conta com parcerias de algumas outras iniciativas, também privadas, para proporcionar a reeducação ambiental do paulistano. Pedal Verde e o movimento da Horta da Pompéia também são projetos que têm a proposta do engajamento socioambiental.

Os ciclistas do Pedal Verde se unem todo último sábado do mês, às 14 horas, para pedalar, cuidar do local onde vivem e, principalmente, deles mesmos. O ponto de encontro é na Avenida Paulista, praça do ciclista, onde seguem um roteiro de lugares que visitarão para plantar árvores. No site do Pedal Verde estão registrados alguns dos lugares que já foram presenteados com uma árvore pelos ciclistas do bem. Quem quiser participar, é só ficar de olho nas redes sociais e site; as expedições são abertas e os novos integrantes são sempre bem-vindos.

Quem não poderia deixar de ser lembrado, é o movimento da Horta da Pompéia. Um dos idealizadores, Paulo Fonseca, já cultivava algumas hortas dentro de sua casa com a ajuda de alguns amigos que gostavam da atividade. Com a iniciativa da ONG Cidade Democrática, que tinha como objetivo colaborar com a melhora do bairro da Pompéia, o pessoal que participava da manutenção das hortas na casa de Paulo deu a ideia de levar o movimento para um espaço vazio do bairro, surgindo assim a Horta da Pompéia.

Cerca de 50 moradores da região se engajaram com causa, revitalizando o espaço rapidamente. Hoje, os vizinhos mantêm o compromisso de cuidar da horta que cresce mais a cada dia, contando também com a ajuda de visitantes que passam por lá para colaborar. O espaço serve também para atividades lúdicas junto a crianças, e algumas oficinas que ensinam os visitantes a cuidar de plantações.

Todos esses projetos promovem a retomada da relação do homem com o meio em que vive. Mas, qual será o momento em que perdemos este contato? Quando deixamos que nosso espaço fosse pintado de cinza e nossos rios sucateados e escondidos pelo concreto?

Para baixo do tapete
O início da sedentarização só foi possível a partir do momento em que o homem fixou-se em um local com fácil acesso à água potável e terras férteis. A partir daí, desenvolveu-se a prática da agricultura, e as proximidades dos rios foram ocupadas gerando a consequente permanência de grupos que antes eram nômades. A população começou a aumentar, pois havia alimentos e recursos disponíveis para todos, culminando na origem dos primeiros povoados que formariam as cidades.

A questão é que essa formação se deu de forma completamente desordenada. Hoje, com a água encanada, os rios passaram de solução a empecilho do crescimento urbano, e foram escondidos por baixo das megalópoles que se formaram.

O rio é formado por dois leitos: o maior e o menor, sendo um dentro do outro: ele fica completamente encaixado no menor em períodos de estiagem (de março a outubro). Mas, nas épocas de chuva (outubro a março), as águas tomam todo o espaço. O rio Tietê, por exemplo, tem a variação de 600 para 1000 metros nesses períodos, sendo que a Vila Maria baixa está localizada em cima no leito maior, tomando o lugar que antes era das águas.

Falando de São Paulo, foi aproximadamente na década de 30 que os rios passaram a ser jogados para baixo das rodovias. Atualmente, apenas 10% das águas estão a céu aberto. O problema fica explicitado quando há uma densidade de pessoas no mesmo lugar de maneira desorganizada. O que vemos, na verdade, é uma retificação do leito menor; os canais são construídos com a largura aproximadamente equivalente ao leito menor, enquanto o leito maior foi totalmente ocupado, pavimentado, loteado e vendido.

Alexandre Delijaicov explica
A partir do momento em que os leitos maiores dos rios passaram a ser alvo de especulação imobiliária, o rio foi exprimido em um pequeno espaço insuficiente nos períodos de cheia. Na verdade, o funcionamento dos rios é semelhando ao dos mamíferos; nosso coração pulsa, aumentando e diminuindo de tamanho. Os rios fazem o mesmo movimento, mas em ritmo diferente.

Imagine se nosso coração fosse amarrado com um material muito resistente e não pudesse continuar com o funcionamento natural, de aumentar e diminuir? Foi exatamente isso que fizemos com os rios quando tiramos a possibilidade deles aumentarem naturalmente seus tamanhos, ocupando o leito maior nas épocas de cheia. Essa é a explicação de Alexandre Delijaicov sobre as enchentes.

Arquiteto, urbanista e professor da FAU USP, formado pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo com mestrado e doutorado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, Alexandre fala com indignação sobre o fato de termos tomado o espaço dos rios “Se a cidade está ocupando parte do rio, o problema não é dele, é nosso. A gente sempre acha que o inferno são os outros, mas o inferno somos nós. Nós que inventamos isso”.

O arquiteto diz que a cidade de São Paulo deveria ter sido desenhada a partir das águas, como Amsterdã, por exemplo, com canais, muita água e árvores. A presença destes elementos tem o poder de garantir o micro clima e gerar um estado psicológico saudável. O meio urbano foi transformado em um lugar de desencontro. A cidade não foi projetada para estar/ficar, e sim para quem está apenas de passagem pelos espaços públicos. Seria importante que tivéssemos a oportunidade de sentir as possibilidades que o lugar tem a nos oferecer.

Toda essa problemática, que envolve desde as questões estruturais públicas às psíquicas individuas, causam consequências graves na sociedade. “As relações humanas estão desgastadas; nos tratamos como descartáveis. É tão interno que a gente não percebe o destrato com o outro, do mesmo modo que não percebemos o coração bater. O grau de insatisfação do individuo é de mal estar completo. Enquanto não sublimarmos esta condição, que é de desgraça, desespero e solidão, porém uma finitude da própria existência, consequente de uma construção coletiva de como podemos poluir juntos, a situação não será revertida”

Alexandre completa dizendo que são esses problemas que leva um jovem, frente a todas as chamadas de dimensão pública, a pegar um carro e ter a coragem de achar que com ele não vai acontecer nada (referindo-se ao caso do atropelamento causado por Alex Siwek). “Ele é um psicopata latente, mas isso não é excepcional. Em todos nós existe a possibilidade de cometer essas atrocidades. Até onde vai a liberdade do outro? E o que os rios têm a ver com isso? Tudo! É um instantâneo da condição humana; ele pega o braço que decepou e joga no rio, porque o rio é a vala de esgoto, a foça social. Se nós somos água, os rios somos nós. Então, não adianta tomar banho e passar perfume, porque nós somos aquilo”.

Filtrando ideias
Cansado de viver na cidade do caos, Alexandre sonha e projeta, há mais de dez anos, um mundo que chega a parecer mágico: um projeto que já havia sido planejado no final do século 19, mas nunca posto em prática. Tendo funcionamento semelhante à Veneza e Sena, nós passaríamos a utilizar as águas como meio de transporte, tornando São Paulo um lugar mais sustentável.
A ideia baseia-se em um anel hidroviário de 600 km de extensão, que interliga os rios Tamanduateí, Tietê, Pinheiros, represas Billings, Taiaçupeba e Guarapiranga. O canal hidroviário serviria como uma saída do transporte rodoviário, que tomou quase todo espaço, viabilizando através dos rios a locomoção urbana e transporte cargas. O projeto também prevê alguns portos que seriam construídos em pontos estratégicos da cidade, a conservação de espaços nas margens que se transformariam em praças e um espaço reservado nas águas para a prática de esportes.

Alexandre diz que nossas ações são o caminho para alcançarmos uma realidade dessas. “Esse tipo de transformação deve ser sistêmica”. Segundo ele, seu projeto não é utópico, e foi orçado em aproximadamente R$ 1 bilhão com duração de 20 anos. A boa notícia é que a proposta já está sendo estudada pelo Departamento Hidroviário da Secretaria Estadual de Transporte.

O problema é que, além dos modelos das cidades que nós criamos não funcionarem pela questão estrutural, há também o problema da filosofia do paulistano, de abuso com o espaço social. Por exemplo, é natural que o fumante jogue sua bituca no chão.

Quando questionado sobre a questão da educação da população após a execução do anel hidroviário, Alexandre lamentou “Nós temos que acreditar na educação, no sentido amplo da sociedade e da cidade educadora. Além disso, não podemos menosprezar a educação formal: uma política pública que tenha objetivos claros da formação do cidadão. Que dê essa visão de se colocar na posição dos outros. Essa bituca de cigarro, ou o motorista que não enxerga o pedestre, são sinais de desconsideração, descaso e falta de lucidez. Só a partir da educação o projeto será viável.”


Veja uma projeção de como seria a Marginal Tietê, se o sonho de Alexandre fosse também o nosso. 
“A sabedoria acompanha os rios”, provérbio japonês.

quarta-feira, março 20, 2013

Mas é aquela coisa, né?

Para começo de conversa, a coisa é que eu sou brasileira e não desisto nunca.

Neste mês eu tive uma das maiores decepções da minha vida. A professora Maria Goreti, que leciona Realidade Socioeconômica e Política brasileira (e haja realidade nisso!), soltou o babado que o Collor não saiu da presidência por pressão popular. Você sabia disso? Pois é, eu não. Pelo que entendi, o cara só não ficou mais porque não tinha aliança com algum partido político e o apoio em peso de nossa tão querida burguesia de cada dia.

Ok. Essa é a história triste do mês. Mas quer saber qual é a maior cagada?

Quando nosso brother Renan Calheiros assumiu a presidência do Senado, eu fui uma das primeiras brasileiras, que não desistem nunca, a confirmar presença no evento“Dia do Basta”, do Facebook. E lá estava eu: Num sábado de sol na Av. Paulista, com nariz de palhaço, cantando “Renan, paga para ver! Tirei o Collor e também vou tirar você”, com o lindo do meu namorado, que também é brasileiro e não desiste nunca.

Deu para sacar?

Não tiramos catso de Collor nenhum! Do mesmo modo que não acabamos com a ditadura, coisa nenhuma. Se assim como eu, você também acreditava que o povo se uniu e exigiu as Diretas Já, vou contar mais um segredo: A ditadura só acabou porque, na verdade, o Milagre Brasileiro foi a arte de foder a economia brasileira. 

A tão esperada sobremesa

O “bolo”, que estava crescendo para ser dividido posteriormente, tinha sido estruturado para atender ao capital internacional e as classes dominantes. Povão que nada! Só que uma hora a casa cai, né galera? E aí que a coisa fede! O desenvolvimento que era atrelado à industrialização subordinada estagnou, a economia parou de girar e o PIB foi lá embaixo dar um salve pro capeta. Tudo isso só aumentou a miséria, divida externa, crise da balança comercial e a fé do brasileiro, que é uma coisa linda de se ver.

Sonho meu

Pois é, minha gente! E aí? O que eu falo para o psdbesta quando ele me diz que não adianta nada colocar um nariz de palhaço, parar o trânsito na Av. Paulista e ainda correr o risco de levar umas boas surras dos PMs? Por que, convenhamos que tenho coisas mais legais para fazer com meu namorado no sábado a tarde. Mas não! A gente é brasileiro e não desiste nunca.

Pão e circo

E por falar em Brasil... Vamos animar galera! A copa tá chegando! O negócio é pintar a cara com as cores do nosso brasil brasileiro, comprar a camisa oficial na Centauro, correr para garantir os ingressos, twittar #queopapaestejacomneymar e torcer pelo nosso país. Pelo nosso país verde e amarelo, que está cada vez mais amarelado por conta das mãos de nossos políticos peidorreiros.

segunda-feira, julho 02, 2012

Encurralado

E aquela sensação horrível de sentir frio, quando na verdade está calor, veio novamente. Nada parecia fazer sentido. Era tudo banal aos olhos alheios, mas para ela não. Tudo tão sensível, tão subjetivo que chega a dar náusea, literalmente.
Talvez seja um pouco difícil de entender, aliás, muito difícil.
A música instrumental tocou durante horas, há palavras demais dentro da cabeça. Só é bem vinda a melodia.
Tudo que se escreve parece lixo, tudo que se pensa parece vago, tudo que se faz parece errado. Pode ser que nada pareça, mas realmente seja.
Alguma hora vai petrificar, tem que petrificar. O frio aumentará e tudo que lhe dava conforto irá embora, para sempre. Nó na garganta, e o estomago aperta ainda mais. O doce que comeu parece veneno.
Muito drama? É o mais fácil de pensar...
A loucura nunca pareceu tão chata.

Será possível dizer "cansei" sem que alguém diga que não há espaço? Dá para engolir a palavra, como se engole todo resto?

Fugir é covarde, enfrentar é desleal, escrever é absurdo.
A saída está ali, mas ela não é sua, menina. Você deve esperar todos pularem do barco primeiro...
Prenda a respiração enquanto o barco afunda. Fique roxa, ouça todos dizerem que você aguenta.

...E se possível, pule depois.

segunda-feira, fevereiro 06, 2012

O Enquadrado

Então tá. Vamos fazer tudo como da ultima vez, mas é claro que será completamente diferente.
Pare, pense, respire. Não, não pense. Pondere a emoção, controle a razão. Às vezes doze anos, às vezes trinta. Doze na maioria.
Falta tempo, sobra saudade. O medo grita tão alto quanto a empolgação.

É como pintar um quadro. A primeira pincelada é sempre a mais amedrontadora. Depois de tomar coragem e botar as cores e pincéis para trabalhar, tudo fica mais fácil. Depois dessa primeira pincelada, é possível ter ideia do lugar de cada figura imaginada, de como as cores se mesclarão. Imaginamos os contrastes entre cores quentes e frias, pensamos em usar laranja e azul bebê, mas acabamos optando pelo vermelho e verde. Tudo bem. Quem tem tudo sob controle acaba enlouquecendo.

Joguinhos não são bem-vindos. Eu já sei que isso é chato e cansativo.
A expectativa chega a dar nó na garganta. Corremos mais do que o certo, será que tem tanto problema? Afinal, o que é o certo? Você sente mais do que espera, não tem mais nada sob controle e os não envolvidos acham bonitinho. Por um momento é até convincente, mas ai tudo está de ponta cabeça de novo. É preciso mais coragem para dar a segunda pincelada, eu achei que ficaria mais fácil. Talvez na terceira?

Ai você percebe que a ideia vai ganhando forma, o pincel amacia e os traços formam figuras que são agradáveis aos olhos. Você vê que aquele esforço valeu. Nem tudo saiu como o esperado... Mas acho que é exatamente essa a infinita brincadeira. Imaginar, pintar e reformar o quadro.