Pensei em escrever sobre uma garota qualquer. Na verdade, uma que vi no metrô certa vez. Ela me parecia um pouco mal humorada, vestia uma calça desleixada combinada com uma camiseta que tinha estampada a bandeira dos EUA, seus tênis estavam gastos e os cadarços eram de cores ofuscantes. Observa-la andando com certa pressa, com aquela expressão carrancuda, me inspirou a escrever uma história bem clichê, em que uma garota chamada Natália, (nome sem relevância alguma) aparentava ser uma rebelde sem causa. Não se dava com a família, era de poucos amigos, cabulava aulas e fumava cigarros sem ao menos suportar o cheiro que impregnava em suas roupas. Talvez eu diria também que seus cabelos eram pretos com mechas verdes. E para completar o previsível, contaria que na realidade, ela tinha motivos para ser assim: a mãe não se importava com ela, o pai era alcoólatra ou ela tinha qualquer outro problema grave. Grave o suficiente para que se possa compreender a menina e ainda sentir uma dose de piedade.
Pensei também em escrever sobre um caso passado. Dizer que me apaixonei por alguém que conheci na praia, observando um pôr-do-sol divino. Tudo teria acontecido em um final de verão em que eu gostava de deixar a janela do quarto aberta para acordar com o brilho do sol que refletia no mar.Tudo era mais doce, tudo era mais sereno. Na história, ele era lindo e gentil, até que teria sido honrada com o desprazer de conhece-lo, ou enxerga-lo. Eu havia idealizado um homem, que é claro, não existia. Então eu compartilharia aqui que precisei praticar a arte do desapego, mas sofri muito. E ainda por cima, juraria de pés juntos que esse enredo era somente meu.
Ou talvez, seria mais legal ainda, dizer que enquanto pensava no que escrever, olhava para as estantes de livros que estão frente a mim, aparentemente livros superinteressantes, dos quais poucos li. Contendo desde quadrinhos japoneses até um livro de correspondências entre Freud e Ferenczi. Eu poderia até comentar os livros, baseando-me em breves sinopses ou fazer intrigantes citações de trechos. Talvez seria realmente mais interessante.
Mas eu só quis escrever. Escrever sem me preocupar com a qualidade das histórias.
Deixar o telefone fora do gancho por alguns minutos. Me desconectar desse mundo bagunçado. Dessa vez, eu só queria conseguir esvaziar a cabeça e falar exatamente sobre Nada.
Escrever me faz sentir viva, pois foi assim que encontrei meios de acalmar o barulho do silêncio. E é assim que termino essa história com tempos verbais confusos e sem um final relevante ou até interessante, com Nada.