sexta-feira, maio 30, 2014

Futebol

Torcidas Organizadas: o outro lado

Com fama de maus, torcedores das organizadas mostram que também amam, e com carinho!



O crescente número de casos de brigas e mortes motivadas pelo futebol, em sua maioria envolvendo integrantes de torcidas organizadas, tem feito boa parcela dos torcedores comuns encararem estes grupos como algo negativo para o esporte e para a sociedade em geral. Ao menos é o que aponta uma pesquisa respondida por 136 internautas torcedores. O resultado mostra que para 62% dos entrevistados as uniformizadas são negativas, 21% se dizem neutros a esse respeito e apenas 17% as consideram positivas. Mas será que todo membro de uma torcida organizada se enquadra nesses moldes?



O sociólogo Mauricio Murad, ex-coordenador do núcleo de Estudos de Sociologia do Futebol, da UERJ, e autor de Para Entender a Violência no Futebol, afirma em seu livro que “as frequentes cenas de violência e vandalismo no futebol brasileiro são causadas por 5% dos torcedores organizados”. Murad ainda faz questão de ressaltar que estes “são grupos preocupantes, armados, sem limites e que devem ser contidos, sim. Mas não devemos esquecer que são minoria. Não se diz isso para minimizar o problema, mas para situá-lo em seu devido lugar e ver quem é quem nessa história da violência no futebol”.
O estudioso aponta que, além de primarem por atitudes e comportamentos pacíficos, a maior parcela das torcidas procura agir no sentido de neutralizar os vândalos, chegando até mesmo a fazer parcerias com forças de segurança. “É importante saber que no Brasil há movimentos de denúncia, combate e pacificação dentro das torcidas organizadas contra os grupos de torcedores violentos”, afirma.
O depoimento é reforçado pelo jornalista Vitor Birner, ex-integrante de torcidas organizadas do São Paulo. “Eu conheço um pessoal que a gente chama de Velha Guarda e esse pessoal não gosta de briga, nenhum gosta. Então, eles não concordam com algumas coisas que acontecem nas torcidas”, conta ele.
Mariana Oliveira, que faz parte da Camisa 12, do Corinthians, também afirma que esse tipo de comportamento vai contra os ideais da torcida e lembra que a questão da violência não é algo que pertence exclusivamente ao universo do futebol: “O problema da violência nas torcidas organizadas é um reflexo da nossa sociedade, mas, por parte da torcida, a gente não incentiva isso e existe um controle. Se algum membro adotar uma postura violenta, a diretoria vai procurar tomar medidas para inibir esse tipo de conduta”.
A torcedora também aponta a mídia como uma das responsáveis por criar uma visão generalizada das torcidas organizadas: “O que acontece na mídia muitas vezes é que eles não ouvem o nosso lado. Então, acaba generalizando sem consultar a gente. É injusto”. O sociólogo Mauricio Murad reforça a distorção cometida por parte da imprensa em alguns casos: “Diferentemente do que é divulgado nos meios de comunicação, e que já está incorporado no inconsciente coletivo, a imensa maioria das torcidas é constituída por um público pacífico, embora vibrante, apaixonado”.
Quem faz críticas semelhantes à de Mariana é Acyr Moraes, membro da Gaviões da Fiel há dez anos. “Cresci nas arquibancadas, via e participava das festas. Chegava em casa em êxtase para ver o espetáculo na TV, mas só mostravam brigas isoladas. Desde pequeno percebi o poder da mídia, de manipular informações, porque evidenciavam aquele acontecimento que muitas vezes os torcedores que estavam presentes nem sabiam que tinha ocorrido”, diz ele.

A FESTA
Torcida Independente pinta o Morumbi com as cores do São Paulo.
“A torcida é a alma do time”, afirma Vitor Birner. É o que também pensa Fabiano Haddad, 41, torcedor do Corinthians, que acredita que a torcida é a responsável por trazer a empolgação para o jogo. “A gente vem aqui para ver eles também, não só o time, mas eles, a festa”, conta ele, que levava a família ao seu primeiro encontro com um clássico entre Corinthians e São Paulo no Pacaembu. O relato carrega o peso que uma organizada tem durante o jogo. É ela a responsável por entoar os cânticos e levar faixas, bandeiras e bexigas, para que durante todo o tempo de jogo, os jogadores sintam o pulsar da bateria batendo no peito, transformando a partida em um espetáculo capaz de deixar arrepiado quem se deixa tocar por ele. Acyr Moraes, da Gaviões da Fiel, resume a relevância da torcida em uma única frase: “estádio sem torcida organizada perde a vida, fica morto”.

OS DONOS DA CAMISA 12
Torcedores do Palmeiras homenageiam o goleiro Marcos,
um dos maiores ídolos do clube, com mosaico.
Se para quem assiste a uma partida, sentir o apoio da torcida é algo emocionante, o que diz quem está dentro de campo? “É difícil (explicar). É bonito. É muito legal, muito gratificante. Eu tive uma experiência nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, contra o Paraguai, em uma partida que decidiria a classificação. E foi um dos melhores públicos do país no Maracanã. Como eu tinha ido muito bem no último jogo, passados 25, 30 minutos do segundo tempo, estava 0 a 0, e de repente a torcida começou “Rivellino”. Aquele Maracanã, você não sabe a emoção que é. Eu era moleque e aquilo foi um negócio que mexeu muito comigo”, narra Roberto Rivellino, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial e ídolo do Corinthians, Fluminense e da Seleção Brasileira.

PROJETOS SOCIAIS
Em sua maioria, as torcidas organizadas tem o hábito de promoverem ações sociais em comunidades carentes e com moradores de rua. É o caso, por exemplo, da Camisa 12, uniformizada do Corinthians com sede do bairro do Pari, em São Paulo. A organização promove trabalhos voluntários em várias épocas do ano, como a campanha do agasalho, que está acontecendo atualmente.
Entre as ações estão campanhas de doação de sangue, que ocorrem tanto em parceria com o Corinthians quanto de forma independente do clube, na sede da torcida, distribuição de brinquedos para crianças carentes no dia das crianças, assim como de ovos de chocolate, na Páscoa. Mariana Oliveira conta que o dinheiro utilizado nas campanhas é proveniente da própria verba da torcida ou de ofícios em parceria com fábricas da região.
Em jogo contra o São Paulo, no estádio do Pacaembu, a Gaviões da Fiel
estende bandeirão contra o racismo e a exclusão social.
Outra torcida que promove ações do gênero é a TUP, Torcida Uniformizada do Palmeiras, que, além de prestar serviços para a comunidade, através de campanhas de agasalho, por exemplo, também mantém convênios com forças sindicais para disponibilizar cursos profissionalizantes para os associados e suas famílias.
Já a Gaviões da Fiel organiza campeonatos de futsal para moradores de seus arredores e oferece aulas de informática e escolinha de bateria, onde ensinam os alunos a tocar algum instrumento. Para seus membros, a organizada também oferece palestras periódicas, onde são transmitidos os valores e a história da torcida.

GLÓRIAS DO PASSADO
Poucos sabem, mas muitas das principais torcidas organizadas de São Paulo foram criadas durante a ditadura militar e serviram como forma de resistência ao governo em vigência. Em seu livro Torcidas Organizadas de Futebol, Luiz Henrique de Toledo afirma que “juntamente com outras formas de organização e associação, a torcidas formaram canais de participação populares diante da ausência de partidos e representações legais”.
Anos antes da Democracia Corintiana, a Gaviões da Fiel reivindicava abertura política para o país durante a ditadura militar. Veio da torcida a primeira faixa pela anistia, aberta para cem mil pessoas. O fato ocorreu em um jogo contra o Santos, em 1979, no estádio do Morumbi. Durante a entrada das equipes, lia-se nas arquibancadas os dizeres “Anistia ampla, geral e irrestrita”, a primeira manifestação pública a favor da ação.
Em depoimento à Fundação Perseu Abramo, o jornalista Antonio Carlos Fon relata o episódio. “Um dia eu estava conversando com o Chico Malfitani, que trabalhava comigo na Veja, e disse a ele: ‘O que precisamos mesmo é levar a palavra de anistia para a torcida do Corinthians, para o povo’. O Chico era um dos pioneiros da Gaviões e disse: ‘Vamos fazer’. Quase todo mundo fotografou e isso foi parar no Brasil inteiro”.  O ato, no entanto, fez com que integrantes da organizada fossem intimados a comparecer ao Doi-Codi.

Gaviões da Fiel abre faixa a favor da anistia em jogo contra o Santos, em 1979, no Morumbi.


VOCÊ SABIA?
Charanga do Flamengo, em 1942.
Historicamente, a organização dos torcedores brasileiros de futebol começou com a fundação da Torcida Uniformizada do São Paulo, por Laudo Natel e Manoel Porfírio da Paz, em 1940. Dois anos depois, surgia a Charanga Rubro-Negra, do Flamengo, criada por Jaime Rodrigues de Carvalho.




FIQUE POR DENTRO!
A união entre futebol e carnaval vem de longe. Charanga é como se chamam as bandinhas de animação do interior do Brasil que levavam música, principalmente marchinhas, para dentro dos estádios nas primeiras décadas do século XX.

UM POUCO DA HISTÓRIA DAS MAIORES TORCIDAS DE SÃO PAULO





CONFIRA:

Áudio: Ping-pong com Roberto Rivellino



Vídeo: entrevista com Marina Oliveira Ramos - integrante da torcida organizada Camisa 12




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