Torcidas Organizadas: o outro lado
Com fama de maus, torcedores das organizadas mostram que também amam, e com carinho!

O sociólogo Mauricio Murad,
ex-coordenador do núcleo de Estudos de Sociologia do Futebol, da UERJ, e autor
de Para Entender a Violência no Futebol, afirma
em seu livro que “as frequentes cenas de violência e vandalismo no futebol
brasileiro são causadas por 5% dos torcedores organizados”. Murad ainda faz
questão de ressaltar que estes “são grupos preocupantes, armados, sem limites e
que devem ser contidos, sim. Mas não devemos esquecer que são minoria. Não se
diz isso para minimizar o problema, mas para situá-lo em seu devido lugar e ver
quem é quem nessa história da violência no futebol”.
O estudioso aponta que, além de
primarem por atitudes e comportamentos pacíficos, a maior parcela das torcidas
procura agir no sentido de neutralizar os vândalos, chegando até mesmo a fazer
parcerias com forças de segurança. “É importante saber que no Brasil há
movimentos de denúncia, combate e pacificação dentro das torcidas organizadas
contra os grupos de torcedores violentos”, afirma.
O depoimento é reforçado pelo
jornalista Vitor Birner, ex-integrante de torcidas organizadas do São Paulo.
“Eu conheço um pessoal que a gente chama de Velha Guarda e esse pessoal não
gosta de briga, nenhum gosta. Então, eles não concordam com algumas coisas que
acontecem nas torcidas”, conta ele.
Mariana Oliveira, que faz parte
da Camisa 12, do Corinthians, também afirma que esse tipo de comportamento vai
contra os ideais da torcida e lembra que a questão da violência não é algo que
pertence exclusivamente ao universo do futebol: “O problema da violência nas
torcidas organizadas é um reflexo da nossa sociedade, mas, por parte da
torcida, a gente não incentiva isso e existe um controle. Se algum membro
adotar uma postura violenta, a diretoria vai procurar tomar medidas para inibir
esse tipo de conduta”.
A torcedora também aponta a mídia
como uma das responsáveis por criar uma visão generalizada das torcidas
organizadas: “O que acontece na mídia muitas vezes é que eles não ouvem o nosso
lado. Então, acaba generalizando sem consultar a gente. É injusto”. O sociólogo
Mauricio Murad reforça a distorção cometida por parte da imprensa em alguns
casos: “Diferentemente do que é divulgado nos meios de comunicação, e que já
está incorporado no inconsciente coletivo, a imensa maioria das torcidas é
constituída por um público pacífico, embora vibrante, apaixonado”.
Quem faz críticas semelhantes à
de Mariana é Acyr Moraes, membro da Gaviões da Fiel há dez anos. “Cresci nas
arquibancadas, via e participava das festas. Chegava em casa em êxtase para ver
o espetáculo na TV, mas só mostravam brigas isoladas. Desde pequeno percebi o
poder da mídia, de manipular informações, porque evidenciavam aquele
acontecimento que muitas vezes os torcedores que estavam presentes nem sabiam
que tinha ocorrido”, diz ele.
A FESTA
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| Torcida Independente pinta o Morumbi com as cores do São Paulo. |
OS DONOS DA CAMISA 12
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| Torcedores do Palmeiras homenageiam o goleiro Marcos, um dos maiores ídolos do clube, com mosaico. |
PROJETOS SOCIAIS
Em sua maioria, as torcidas
organizadas tem o hábito de promoverem ações sociais em comunidades carentes e
com moradores de rua. É o caso, por exemplo, da Camisa 12, uniformizada do
Corinthians com sede do bairro do Pari, em São Paulo. A organização promove
trabalhos voluntários em várias épocas do ano, como a campanha do agasalho, que
está acontecendo atualmente.
Entre as ações estão campanhas de
doação de sangue, que ocorrem tanto em parceria com o Corinthians quanto de
forma independente do clube, na sede da torcida, distribuição de brinquedos
para crianças carentes no dia das crianças, assim como de ovos de chocolate, na
Páscoa. Mariana Oliveira conta que o dinheiro utilizado nas campanhas é
proveniente da própria verba da torcida ou de ofícios em parceria com fábricas
da região.
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Em jogo contra o São Paulo, no estádio do Pacaembu, a Gaviões da Fiel
estende bandeirão contra o racismo e a exclusão social. |
Já a Gaviões da Fiel organiza
campeonatos de futsal para moradores de seus arredores e oferece aulas de
informática e escolinha de bateria, onde ensinam os alunos a tocar algum
instrumento. Para seus membros, a organizada também oferece palestras
periódicas, onde são transmitidos os valores e a história da torcida.
GLÓRIAS DO PASSADO
Poucos sabem, mas muitas das
principais torcidas organizadas de São Paulo foram criadas durante a ditadura
militar e serviram como forma de resistência ao governo em vigência. Em seu
livro Torcidas Organizadas de Futebol,
Luiz Henrique de Toledo afirma que “juntamente com outras formas de organização
e associação, a torcidas formaram canais de participação populares diante da
ausência de partidos e representações legais”.
Anos antes da Democracia
Corintiana, a Gaviões da Fiel reivindicava abertura política para o país
durante a ditadura militar. Veio da torcida a primeira faixa pela anistia,
aberta para cem mil pessoas. O fato ocorreu em um jogo contra o Santos, em
1979, no estádio do Morumbi. Durante a entrada das equipes, lia-se nas
arquibancadas os dizeres “Anistia ampla, geral e irrestrita”, a primeira
manifestação pública a favor da ação.
Em depoimento à Fundação Perseu
Abramo, o jornalista Antonio Carlos Fon relata o episódio. “Um dia eu estava
conversando com o Chico Malfitani, que trabalhava comigo na Veja, e disse a
ele: ‘O que precisamos mesmo é levar a palavra de anistia para a torcida do
Corinthians, para o povo’. O Chico era um dos pioneiros da Gaviões e disse:
‘Vamos fazer’. Quase todo mundo fotografou e isso foi parar no Brasil inteiro”. O ato, no entanto, fez com que integrantes da
organizada fossem intimados a comparecer ao Doi-Codi.
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Gaviões da Fiel abre faixa a favor da anistia em jogo contra o Santos, em 1979, no Morumbi. |
VOCÊ SABIA?
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| Charanga do Flamengo, em 1942. |
FIQUE POR DENTRO!
A união entre futebol e carnaval
vem de longe. Charanga é como se chamam as bandinhas de animação do interior do
Brasil que levavam música, principalmente marchinhas, para dentro dos estádios
nas primeiras décadas do século XX.
UM POUCO DA HISTÓRIA DAS MAIORES TORCIDAS DE SÃO PAULO
CONFIRA:
Áudio: Ping-pong com Roberto Rivellino
Vídeo: entrevista com Marina Oliveira Ramos - integrante da torcida organizada Camisa 12








